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9 de nov de 2011

Coluna da Nação: Bernardo Coimbra - O Melhor Jogo Que Eu Não Vi


 

Nome: Bernardo Coimbra
Idade: 21 anos
Local: São Paulo - SP
Twitter: @b_coimbra
O que é o Flamengo pra você?
Mais que um clube, uma entidade viva muito maior do que qualquer um possa imaginar. Algo que se movimenta sem pernas, pensa sem cabeça e sofre sem coração com seus 35 milhões de fãs apaixonados


O Melhor Jogo Que Eu Não Vi

Gostaria eu, nobre rubro-negro residente em São Paulo, de ter a honra de ter visto in loco o melhor jogo de futebol do ano de 2011. Não fui abençoado com tal prazer, mas tive a honra de participar do momento. Sim, eu estive lá e não vi o jogo. Como isso é possível?

Quarta-feira desloco-me junto com o meu primo para a baixada santista para assistir o embate do ano (anunciado anteriormente por todos meios de comunicação) entre os dois melhores times do Brasil no papel. A probabilidade de uma grande decepção estava presente, entoada aos sete ventos pelos desgracentos que nosso mundo rondam.

O plano era deveras simples: chegar até a terceira vila mais famosa do mundo (atrás da Vila Country e da Vila Madalena) e tentar conseguir um ingresso para o jogo com alguém que porventura não viesse junto com a delegação flamenga. Fatalmente não conseguimos. Num setor de visitantes para 700 pessoas era impossível arrumar um lugar vago para dois urubus que chegaram em cima da hora.

Começou então o nosso suplício: conseguir ingresso na mão dos desprezíveis cambistas praieiros-eternos-pequenos-do-futebol-nacional. A cotação inicial que tivemos foi triste: com o jogo já em andamento (coisa de 20 do primeiro tempo, com 2x0 para o Santos) nós pagaríamos 120 reais em cada ingresso para um lugarzinho qualquer coisa no estádio - longe da torcida do Flamengo, obviamente. 

Continuamos procurando. Achamos um cidadão qualquer disposto a nos vender por 80 uma única entrada que, dentro do estádio, dava acesso à torcida do Flamengo. Ora, em terra de cego, caolho é rei. Compramos a tal.


Como o jogo já se adiantava (e se apresentava nos perigosos 3x0 para o time da casa), achamos melhor um entrar. Falei para o meu primo fazer as honras enquanto eu continuava a minha busca por um ingresso também por 80 reais - que era tudo que eu tinha na minha carteira.

Fiquei do lado de fora do estádio Urbano Caldeira, junto com uma maré de peixes e sardinhas, buscando meu ingresso. Perguntava de canto a canto, e todas as cotações eram acima do meu orçamento. 

Num determinado momento achei um cidadão com um casaco da Torcida Jovem do Santos disposto a me vender um ingresso por 60 reais, que dava acesso à torcida visitante. Fiz um rápido acordo que ele deveria me esperar na rampa, enquanto passava o ingresso. Se o tal fosse falso, pegaria meu dinheiro de volta. O ingresso não passou, e ,fatalmente, o cidadão fugiu. Nessas horas eu, burro, idiota, deveria lembrar que sardinha é de uma família deveras próximas da do bacalhau.

A situação que se desenhou era de Bernardo sozinho no lado de fora da Vila Belmiro, envolto num mar com as mais variadas espécies de criaturas marítimas vestindo preto e branco. Ora, eu pergunto a você, caro leitor: o que faria?

Tomei a decisão mais estúpida da noite: virei uma sardinha por 2 horas, para não virar sopa de urubu. Me critiquem! Batam em mim! Me xinguem! Digam que não sou um real rubro-negro, mas não digam que eu me omiti por falta de tentativa. 

O meu Manto se encontrava dobrado dentro do meu bolso, e eu estava a paisana. Parei num bar em frente ao estádio e comecei a assistir mezzo-mezzo a partida. Afinal, é difícil ver com 500 cabeças na frente e com uma barra de ferro na frente da televisão. 

 

Cometi o maior crime que se pode cometer: tive que mentir que estava torcendo para outro time. O Santos atacava, eu era obrigado a comemorar. O Santos marcava, eu gritava. O Santos sofria um gol, eu era obrigado a demonstrar desapontamento.

Nisso o meu manto no bolso pulsava, vivo como nunca, buscando uma explicação para aquela insanidade que eu estava fazendo. Sim, meus amigos, talvez eu tenha sido uma das únicas pessoas no mundo que tenham visto o Manto ganhar vida enquanto dobrado num bolso qualquer.

Em Roma como os Romanos, eu respondia. E seguia, morrendo por dentro, com meu suplício. Eu queria gritar, sair correndo, esfregar na cara dos Santistas o Manto vivo. Mas não podia. Era preciso estar vivo para ver o Flamengo ganhar, e assim eu fiquei.

Assim eu ví o Flamengo ser protagonista do maior jogo de futebol do ano, mesmo estando do outro lado da torcida.

Se me arrependo? Eu diria que foi uma das experiências mais absurdas da minha vida flamenga, e ela serviu sem sombra de dúvida para aumentar o meu amor pelo clube.

Porque se um pouco de mim morreu hoje por torcer, nem que sejam 2 horas contra o Mais Querido, com o único intúito de sobreviver para ver o "depois", esse pouco renasceu quando soube (e ví na gravação) o quão épico foi esse jogo.

Eu não posso dizer que eu vi. Mas posso dizer que estava lá. Estava além das linhas inimigas. E voltei aqui para contar a história.


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Bernardo Coimbra já esteve aqui com um post sobre cornetagem, e volta contando sua história no melhor jogo dos últimos anos. Sensacional! E você gostou do Coluna da Nação? Você já passou por algo semelhante a esta história? Faça como o Bernardo! A coluna é sua! Manda seu texto pra gente (quantos quiser!). Veja os detalhes aqui: Coluna da Nação

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"Eu queria ser um poeta para poder te explicar,
mas não consigo traduzir o sentimento de amor que a gente tem pelo Flamengo."

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2 comentários:

  1. Nao sei se conseguiria torcer para outro time, e espero nunca precisar passar por uma situacao igual a essa. Só digo uma coisa, vc deve ter sofrido muito. Pois, ficar olhando os gols que fizeram esse jogo ser epico, e nao poder pular, gritar, comemorar, deve ter doído em sua alma. Parabens pelo seu instinto de sobrevivencia!!!
    Parabéns também Flamanolos, por abrir este espaco para à Nacao!

    Abracao!
    @DalvaFerreira

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  2. Queria saber como é que ficaram os rostos dos peixes mortos nesse bar... A expressão de decepção e de surpresa.
    Boa história!
    Pra contar pro resto da vida.

    Verdadeiras Saudações Rubro-Negras!

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Uma vez Flamengo, sempre Flamengo.