
Após o gol de empate do Ceará, no jogo de ontem, grande parte da torcida presente no Moacyrzão se limitou a vaiar o time (principalmente o Welinton) e não demonstrava o mínimo de apoio. Claro que o jovem zagueiro falhou, mais uma vez, e é direito do torcedor fazer o que bem quiser, mas vaiar no decorrer do jogo só piora as coisas.
A Nação Rubro-Negra é diferente das outras torcidas, historicamente, por nunca deixar de apoiar o time. Porém, cada vez mais enxergamos nos estádios uma massa impaciente, pessoas que já no início da partida pegam no pé daqueles jogadores já carimbados, caso do Welinton. Será que alguém pensa que desta forma está ajudando o time? Que xingando e criticando aquele jogador, que está em campo vestindo o Manto Sagrado, o está motivando e passando confiança?
Tá certo que paciência tem limite e o último resultado realmente foi pra emputecer, mas que vaie, xingue, mande aquele ameba trocar de time no final do jogo. Se o Flamengo sofrer um gol de empate aos 43 do 2º tempo, eu ainda acredito na reação, até o fim. Penso que nem a @CrisMarassi, que postou ontem no twitter: “Toda vez que vejo torcedor saindo mais cedo e revoltado do estádio, torço mais pro Mengão fazer a flamenguice de um gol aos 45 minutos!”
Deixando claro que não estou generalizando, mas falo com saudade de um tempo não tão distante, em que a torcida foi uma só, um só corpo, um só grito de apoio ao Flamengo. Transcrevo agora um texto do Sérgio Xavier Filho, para a revista Placar de dezembro de 2007. Você lembra disso?
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Oh, meu Mengo!
Por que eles foram melhores do que todas as outras torcidas em 2007
Se alguém disser que Ibson foi o grande nome do Flamengo em 2007 não estará mentindo. O volante com pinta de meia (ou seria um meia com pinta de volante?) modificou a maneira de o Flamengo jogar no Brasileiro. Fábio Luciano é outro nome que merece lembrança pelo que fez em 2007. Deu enfim segurança ao miolo de zaga. A retaguarda do Flamengo deixou de ser a peneira dos primeiros jogos também pelo moral do goleirão Bruno. Joel Natalino Santana, o homem que rebocou um Flamengo à deriva, trabalhou com a confiança perdida em alguma esquina das primeiras rodadas e deu condição para os talentos individuais brotarem.
Mas até a Pedra da Gávea sabe que o grande craque do Flamengo em 2007 não foi Ibson, Fábio Luciano, Leonardo Moura, Bruno ou Joel Santana. A torcida Rubro-Negra, essa massa disforme que empurra ou atrapalha o time, fez toda a diferença. Quem teve a oportunidade de pisar no Maracanã ultimamente sabe disso. Não se trata de clichê, um décimo-segundo jogador que empurra a equipe. A torcida Flamenguista pegou o time pela mão e saiu da zona de rebaixamento direto para a ante-sala da Libertadores. Criou cânticos, criou símbolos (Obina é o mais notável), criou um fato novo. O Brasileirão de 2007 foi vencido pelo São Paulo, mas a trajetória do Flamengo na competição marcou mais o ano. Mas por que exatamente isso aconteceu? A torcida do Flamengo é diferente das outras?
Antes de tentar decifrar o enigma é preciso perceber que o Flamengo enfrentou um campeonato diferente dos outros. Por causa do fechamento do Maracanã para o Pan, em julho, o clube teve uma série de jogos remarcados para o segundo semestre. Sempre será discutível se isso foi justo ou não, já que o Flamengo poderia muito bem jogar em Cariacica, Maceió ou em qualquer outro reduto carioca pelo país. De alguma forma, Fluminense e Botafogo, que usam também o Maracanã, se viraram e não tiveram tantos jogos transferidos.
O fato é que os quatro jogos remarcados (Juventude, Cruzeiro, Vasco e Fluminense) mexeram profundamente com o Flamengo e com sua torcida. A primeira conseqüência foi o terror. O clube embrenhou-se pela zona de rebaixamento de uma forma que parecia ser quase impossível tirar o pé do atoleiro. Para quem não lembra, o Flamengo terminou o primeiro turno em penúltimo lugar, coladinho ao natimorto América. Eram somente 15 pontos e quatro jogos atrasados. O primeiro clube na época com a cabeça de fora do rebaixamento era o Atlético-PR, com 22 pontos. O Flamengo estava fazendo uma média de um ponto por jogo, ou seja, mesmo cumprindo os jogos que faltavam, a tendência era seguir no buraco. A sirene soou e a luz vermelha piscou. O torcedor Rubro-Negro rapidamente atendeu ao chamado e percebeu que, quanto mais cedo berrasse, mais cedo o Flamengo se livraria do pior.
A segunda conseqüência foi a euforia. Com o Maraca sempre cheio, o time foi empilhando vitórias em cima de vitórias. Joel Santana se aproveitava dos reforços do segundo turno que, enfim, podiam jogar. Ibson, Maxi e Fábio Luciano fizeram toda a diferença. E aí fechou-se um inédito círculo virtuoso. Sempre com jogos atrasados, o Flamengo desafiava a pontuação da tabela. O que valia mais, a classificação real do momento ou a pontuação virtual (caso o time ganhasse os pontos que faltavam)? O torcedor pessimista apoiava o time pela primeira razão. Quem abria a página do jornal via que o Flamengo seguia próximo da zona de rebaixamento. O otimista ia ao estádio porque acreditava na confirmação automática dos pontos atrasados e enxergava uma Sul-Americana e até mesmo a Libertadores. E, na hora da partida, o pessimista e o otimista se fundiam em um torcedor fundamentalista. A música era a mesma, o Flamengo se transformou na única religião.
Torcer para o Flamengo em 2007 no Maracanã virou programa pop e cult. É em tempos de crise que a criatividade fica mais fértil. Alguém adaptou o “Tema da Vitória” de Ayrton Senna para as arquibancadas. “Tu és time de tradição, raça, amor e paixão, oh, meu Mengo! / Eu sempre te amarei, onde estiver estarei, oh, meu Mengo!” A danada pegou, impregnou corações e mentes. Jogando bem ou mal, o time respondeu em campo. Vencia, de qualquer jeito, como se fosse teleguiado pela arquibancada.
As médias de público do Flamengo são assustadoras, quase 40.000 pagantes por partida no Maracanã. É público de futebol europeu. Mas o que mais interessa aí não é a quantidade de torcedores, e sim a qualidade da torcida. Um estádio costuma se dividir em dois grupos, os organizados que apóiam incondicionalmente o time, na derrota ou na vitória, e o torcedor comum de resultados. O segundo tipo só aplaude “na boa”, paga o ingresso e quer seus direitos de consumidor respeitado, ou resultado ou show de bola. Quando um estádio inteiro consegue torcer do primeiro jeito, não há quem segure o time em campo. Os argentinos são assim. Os gremistas conseguiram na última Libertadores essa cidadania argentina. Levaram um time limitado à final.
O Flamengo fez no Brasileiro o que o Grêmio tinha mostrado na Libertadores. Apoio full time, cânticos, pacote completo. Até canelada de Obina rendia ovação (sem ovos, por favor). Assim não há quem resista. Até o meia Roger deve ficar arrepiado...
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Tirando a parte da comparação com as torcidas gremista e argentina, concordo até com as vírgulas do texto. E relembrar isso me emociona. Torcedores cornetas e que só sabem vaiar sempre existiram e assim deve ser até o fim, mas é possível que tudo isso se torne uma só voz de apoio, como foi em 2007.
E olha que aquele time do Flamengo era apenas bom. Da última vez que unimos o nosso apoio incondicional com craques em campo, deu Hexa! Quer repetir 2009? Os craques estão lá outra vez.
Saudações Rubro-Negras!
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@luamCRFpb (Luã Milanês)